• Denise Gaelzer Mac Ginity

Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo

2019 chega ao fim e nesta época do ano existe em nós uma tendência à reflexões e em alguns casos até mesmo a presença de uma certa angústia. De fato, para os seres humanos, todo final é angustiante por si só.

Finalizar, dar o ponto final, chegar ao fim …, nos remete inconscientemente aos nossos limites e à nossa própria finitude. Cada final ecoa naquilo que passamos a vida tentando negar : o fato de que na vida tudo tem seu fim, inclusive a vida ela mesma.

A época das festas de final de ano desencadeia muitos outros sentimentos e estes se tornam um assunto recorrente durante as sessões de análise. Chegado este momento as pessoas tendem a avaliar, reavaliar, questionar o ano que vem chegando ao fim.

Como vivemos em uma época e numa sociedade da performance, onde somos muito exigidos e exigentes com nós mesmos, a sensação de ‘’eu não fiz o suficiente’’ ou de ‘’não foi o suficiente’’ se faz presente de forma exacerbada. Com isto, nossas as avaliações em relação à nós mesmos, acabam sendo na maioria das vezes negativas, muitas vezes com esta conotação de insuficiência.

Em razão de estarmos absorvidos por resta lógica de que o nosso valor enquanto sujeitos está em o quanto produzimos, o quanto ganhamos, o quanto fomos positivos e felizes, belos, fortes, magros ; tudo ao mesmo tempo, acabamos o ano exaustos !

Esta exaustão acontece simplesmente pelo fato desta ser uma lógica idealizada que não alcançaremos jamais. Podemos até atingir alguns objetivos traçados, mas sempre vai haver algo que falta.

Esta falta é justamente o que deveria nos instigar para o desejo de continuarmos realizando pouco à pouco, sem maiores ilusões de sermos completos. No entanto, o que acontece é o contrário : a falta, o que faltou fazer, ganha tônus de frustração, onde ‘’sou um derrotado por não ter feito aquilo que é exigido socialmente de mim, para que eu seja considerado um indivíduo sucedido e para que eu possa dizer que o ano que está acabando foi bom’’.

É então que, ao invés de mudarmos nossa mentalidade e simplesmente olharmos para o que foi bom com alegria e de aceitarmos o que foi difícil ou ruim como parte da vida, passamos à nova etapa : o ano novo ! Assim as exigências ressurgem rapidamente de maneira à nos amarrarmos novamente em nosso desejo inconsciente ou consciente de alta performance, produção e realizações ilusórias.

Pensando por este âmbito vos proponho : Que tal analisarmos de forma lúdica e simples a música popular cantada em alto e bom som nas festas de virada de ano no Brasil, e que dá título a este escrito ?!

Começa assim : ‘’Adeus ano velho ! Feliz ano novo !’’. Até aí tudo bem, um ano acaba e nos despedimos dele ; um outro ano começa e esperamos que seja um ano feliz.

Mas logo já vem a exigência : ‘’Que tudo se realize no ano que vai nascer’’. Tudo se realize ? Não vamos realizar tudo, melhor nem idealizar ; E sem idealizações, menores serão as frustrações.

Segue com : ‘’Muito dinheiro no bolso…’’. Ok, seria ótimo, mas porquê não pensar em dinheiro suficiente para uma vida confortável ? Dinheiro suficiente para o básico do bem-estar e para alguns momentos de lazer ?

E finaliza com : ‘’…saúde pra dar e vender !’’. Tem alguém aí querendo vender saúde ?!

Com esta crítica não estou aqui propondo um boicote à tão enraizada canção de Réveillon. Cante-a o quanto quiser. Mas proponho que possamos nos despedir do ano de 2019 com leveza, orgulhosos daquilo que conseguimos realizar e com consciência de que realizamos nossos objetivos e desejos dentro de um tempo singular, com avanços mas também com limitações, algo que é próprio do ser humano. E que a gente consiga sobretudo se dar conta de que o fato de não termos alcançado tudo é o natural ; o contrário simplesmente não existe

E para 2020 desejo desejos mais palpáveis, verdadeiramente realizáveis, e acima disto paciência para aceitarmos nosso tempo de realiza-los sem tantas exigências e consequentemente sem tantas frustrações e sem tanta angústia.

Que saibamos curtir os momentos de felicidade e respeitar os momentos difíceis ou de tristeza, pois todos estes são inerentes à nossa existência. Mudemos a forma como nos relacionamos com a vida, com os anos, para que a gente aproveite o caminho ao invés de focar nos fins.

Um bonito e real 2020 para todos!


Denise GAELZER MAC GINITY

Psicóloga Clínica/Psicanalista em Paris

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