• Denise Gaelzer Mac Ginity

Por que a Psicanálise?

Atualizado: 29 de Out de 2019

Para este artigo inaugural em parceria com a ‘Me voilà’ resolvi desenvolver minhas idéias sobre uma pergunta que me é feita com frequência : Por que escolher um tratamento Psicanalítico quando algum sentimento, algum sofrimento ou algumas sensações hostis tomam conta da nossa vida psíquica ?

As reflexões para tentar respondê-la são pautadas no meu fazer clínico diário, embasadas à cada encontro com o outro e nas mais suscintas observações que faço do mundo ao meu redor.

Em tempos de padronizações e de terapias generalistas, que pouco consideram a subjetividade humana, eu, como psicóloga clínica e Psicanalista sigo um direcionamento que pode parecer comum mas que na realidade está cada vez mais em déficit na nossa sociedade e no meio dos profissionais da saúde, o de trabalhar com cada ser humano à partir de sua individualidade. Para isto, cada pessoa que me procura, seja no consultório ou no hospital, será escutado de forma singular à partir de seu inconsciente, de sua história, de seus registros psíquicos, bem como de seus sintomas, de sua angústia, de seu sofrimento.

Eu costumo dizer que fazer análise nos tempos atuais, é proporcionar-se um espaço para si, um tempo para olhar para dentro e aprender consigo mesmo, através do encontro com um outro (analista) que guiará esta reveladora experiência.

No tratamento analítico os caminhos para amenizar o sofrimento são trilhados, por cada analisando (paciente). É por isto que eu costumo dizer que a Psicanálise é para os fortes e corajosos ; não para aqueles procuram receitas prontas, externas à si, mas sim para quem deseja aprender à conhecer-se nos mais profundos detalhes, desfazendo alguns nós que possam lhes impedir de ter uma melhor saúde mental e qualidade de vida. Fazer análise é dar-se a chance de mudanças internas duradouras, mudanças para a vida.

Para ilustrar o que escrevo, tenho alguns exemplos práticos, um deles são os retornos que recebo. Antes de me mudar para a França, onde moro ha pouco mais de 3 anos, trabalhei durante 8 anos no Brasil, e ainda hoje recebo mensagens de alguns antigos pacientes que me dizem que depois de suas análises desenvolveram a capacidade de lidar consigo mesmos, com suas angústias, medos, tristezas em vários momentos de suas vidas. Ou seja, à partir de suas análises desenvolveram a capacidade de auto-análise, podendo levar dentro de si o que foi descoberto em cada sessão.

Neste âmbito, se tais descobertas são internas, o tratamento Psicanalítico impulsionará cada paciente a um reencontro consigo mesmo, para uma redescoberta. E mais que isto, a uma descoberta de autonomia e de liberdade para que cada um possa assumir o que realmente é e o que deseja ser, transpondo muitas vezes os padrões idealizados tão presentes na nossa sociedade, tendo, como resultado, o desenvolvimento da capacidade em fazer escolhas saudáveis para si.

A Psicanálise consiste fundamentalmente na interpretação, pelo psicanalista, dos conteúdos insconcientes por nós reprimidos pelos mais diversos motivos. O que está reprimido aparece para o sujeito como sintoma, que pode ser sentido psicologicamente através da angústia, ansiedade, tristeza, medo, etc) ou fisicamente (pelas dores, paralisias, cansaço, insônia, agitação, doenças e etc).

Mas os sintomas são apenas um sinal dado pelo nosso inconsciente de que algo está escondido. Os conteúdos reprimidos por nós vão emergir por outras vias, ou seja, pela associação livre das palavras, pelos atos falhos, pelos sonhos e etc. Todos estes poderão ser pensados, analisados e resignificados pelo sujeito ao longo do tratamento.

Como cada ser humano é muito maior que seu sintoma, a escuta analítica se expandirá para a compreensão de suas dinâmicas de relação com o outro. Para isto, conhecer a dinâmica das relações de cada paciente e viajar com ele na sua história presente e passada será essencial para o tratamento. Muitas vezes, sem nos darmos conta, quer dizer, inconscientemente, reagimos ou lidamos de tal ou tal forma em determinadas situações em razão das marcas transgeracionais que imprimimos em nós.

Mas o que isto quer dizer ? Que somos indivíduos, individuais, atravessados pelas relações primitivas que vivenciamos com nossos pais, irmãos, tios, padrinhos, amigos, professores, etc. Todos estes encontros ou mesmo alguns discursos que ouvimos repetidas vezes nos atravessam, nos afetam e nos constituem, podendo muitas vezes influenciar no aparecimento ou na forma de determinados sintomas. É justamente por isto que compreender as dinâmicas e marcas destes atravessamentos será um dos pontos à serem trabalhados em análise.

Outra característica importante do processo de análise é o encontro com o analista, à saber, um outro ser humano, que com a ajuda de seu saber (que não é soberano), de sua capacidade de escutar, analisar e de sua empatia, mostrará à cada um de seus analisandos, através de suas interpretações, caminhos para a compreensão dos sintomas e desmatelamento dos mesmos.

A relação analista x paciente será diferente de todas as outras que podemos desenvolver ao longo de nossa existência, será pautada pelo respeito, pela ética, pela empatia e pela verdade. Esta dupla desenvolverá um vínculo precioso para que o trabalho possa se efetivar. O psicanalista detém um saber, mas ele não terá significado sem que exista um analisando. Por outro lado, o analisando também detém um saber. É ele quem sabe de si, de sua história, de suas marcas, de suas lembranças, e que dividirá com o analista os conteúdos à serem trabalhados. É por isto que costumo dizer que o tratamento acontece através de uma dupla que se forma, um contribuindo com o outro, mas sempre em prol do paciente.

Depois desta apresentação resumida, espero ter podido apresentar-lhes em que consiste o tratamento psicológico pelo viés psicanalítico.

Para finalizar, gostaria de registrar que a construção feita em análise com certeza será libertadora, pois não há nada mais extraordinário do que nos tornarmos conscientes de nós mesmos, de quem somos, no sentido de nos conhecermos e de nos respeitarmos enquanto sujeitos de falhas e de desejos.


Denise GAELZER MAC GINITY

Psicóloga Clínica/Psicanalista em Paris

Telefone : 06 68 08 12 80

degaelzer@gmail.com


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