• Denise Gaelzer Mac Ginity

Influências familiares e socioculturais em nossa autoimagem e autoestima

Dando continuidade ao tema da autoimagem e da autoestima, assunto do meu último texto aqui na Me Voilà!, hoje gostaria de abordar a influência e os atravessamentos do meio social, ou seja, da família e do meio sociocultural onde crescemos e nos constituímos enquanto sujeitos, nestes dois aspectos de nossas vidas.

Vimos no primeiro texto, como a relação com a mãe (ou com o primeiro cuidador da criança) têm lugar fundamental na constituição de nossa autoimagem e autoestima, ajudando a criança a se independizar e a conquistar autonomia de maneira mais segura e confiante.

Na medida em que a criança vai se independizando, a relação dual se expande para relações sociais e com isto todo o meio familiar e o ambiente onde a criança se desenvolve ganham extrema importância para como ela se vê e se avalia.

Um meio saudável, com pessoas que lhe impulsionam para o crescimento pessoal poderá deixar marcas positivas neste sujeito em « formação ». Já um meio hostil, que desencoraja, menospreza e/ou agride poderá deixar marcas negativas no que concerne sua autoimagem e autoestima.

É por isto que encorajar a criança e o adolescente, incentivando-o à desenvolver suas aptidões, valorizando suas conquistas e realizações se torna tão importante. Focar apenas naquilo que o jovem não consegue realizar, naquilo em que ele encontra dificuldades ou que não se interessa, pode ter um efeito devastador sobre sua autoimagem e autoestima.

O diálogo, ao invés de palavras ou atos de agressividade, também deve ser priorizado. As palavras quando repetidas ao longo dos anos tem um poder de se tornar parte da verdade individual do sujeito. Por isto escutar que somos capazes, que podemos nos esforçar, que não tem problema errar, entre outras palavras de incentivo, ajudam a nos enxergarmos e termos uma boa estima de nós mesmos.

A forma como nos vemos também recebe influência direta do contexto sócio cultural de onde vivemos. Na cultura ocidental por exemplo, nosso valor está diretamente ligado ao fato do quanto produzimos e quanto valor agregamos à nossa imagem.

Na atualidade vivemos em uma sociedade onde a ditadura de normas e padrões se faz presente, muitas vezes sem nos darmos conta. Portanto a norma se impõe como modelo: quando nós seguimos um padrão estamos identificados com o grupo que nos rodeia (familiar, social). Do contrário, se não seguimos os padrões vigentes, corremos o risco de sermos julgados, diminuídos e, em alguns contextos, até excluídos.

Podemos pensar nesta identificação como uma « imitação » que nos trás certa segurança, justamente pela sensação de pertencimento ao(s) grupo(s), algo que todo o ser humano necessita em menor ou maior grau.

Esta identificação nos trás ainda certo sentimento de « normalidade », onde, « faço o que é aceito », « faço o que o outro faz », « uso o que o outro usa ». Na realidade o ser humano, de forma geral, se acalma quando se define; porém é preciso que possamos refletir, para aprender a pensar e acharmos uma referência individual, evitando desta forma de seguir um modelo imposto sem ao menos questionar: « este modelo me convém? Ele me satisfaz? »

Porém, este comportamento padronizado vai além do que consumimos. Podemos perceber que a forma como as pessoas se vêem e se avaliam tem seguido padrões ditados por uma norma do « corpo perfeito » e do alto rendimento em todos os âmbitos da vida, numa falsa ilusão de que o ser humano pode ser completo. Motivadas por esta ilusão, as pessoas passam à se adaptar, aos padrões.

Este comportamento atinge à todas nós, em menor ou maior grau, e muitas vezes ele não é percebido. Uma necessidade exagerada de se enquadrar à moda e ao que é imposto em termos de padrões pode ser sinal de que a pessoa valoriza muito os aspectos físicos de sua autoimagem, e pode estar com dificuldades em valorizar seus aspectos intelectuais e suas habilidades.

Porém, esta busca incessante por sentir-se « completa » através de ideais socialmente impostos, pode ser causadora de angústia, já que o ser humano nunca será completo/perfeito.

Ironicamente, um comportamento exagerado, no que diz respeito à busca pelo ideal, acaba se transformando em uma fonte de sentimentos hostis a serem tratados, como por exemplo a ansiedade e a depressão.

É por isto que as palavras « equilíbrio », « reflexão » e « aceitação » são tão importantes para a quebra do comportamento desenfreado em busca de adequação dentro dos padrões. Nossa autoimagem e autoestima melhoram no momento em que passamos a nos aceitar, aceitar nosso corpo, nossas qualidades e também nossas fragilidades.

Aceitar as diferenças entre cada ser humano também pode ajudar muito, pois aprender à respeitar o outro na sua singularidade, nos ajuda à aceitarmos nossas particularidades.

Refletir sobre a nossa história* (relações primitivas, contexto familiar da infância e adolescência) e sobre o impacto do contexto social atual na nossa vida*,também pode ser muito esclarecedor e libertador no que concerne nossa autoimagem e autoestima.

*Estes pontos podem ser melhor trabalhados à fundo em um tratamento psicológico/psicanalítico.


Boa leitura e até o próximo capitulo!


Denise GAELZER MAC GINITY

Psicóloga Clínica/Psicanalista em Paris

Telefone : 06 68 08 12 80

degaelzer@gmail.com


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